Carolina Sousa
O meu avô
Ele e a minha avó foram as primeiras pessoas a visitar-me e a conhecer-me na maternidade, quase como prometendo que daí em diante estariam sempre presentes nos momentos importantes da minha vida. Eu agradeço todos os dias a paciência, os valores e o amor que me deram.
Ele ia para a escola a pé sozinho, fizesse sol ou chuva. Eu contei sempre com o conforto da sua boleia para me deixar à porta da escola, saindo da sua carrinha após um beijo seu na minha testa.
Ele aprendeu a nadar no rio junto da sua casa, como tantas outras crianças que moravam no seu bairro. Eu aprendi a nadar enquanto frequentei aulas de natação, às quais ele me levava religiosamente todos os dias.
Ele começou a trabalhar aos 11 anos, forçado a crescer e a orientar-se, vivendo numa sociedade que enfrentava muitas dificuldades. Eu tive uma infância privilegiada, não só por nunca me faltar nada, mas também por poder contar com a sua presença.
Ele combateu na guerra do Ultramar e ficou com o corpo cheio de mazelas, que ainda hoje afetam o seu dia a dia. Eu consegui chegar ao ensino superior com o apoio e orientação da minha família (contando mais uma vez com a sua influência).
Ele casou novo, por procuração, e foi pai pouco tempo depois. Eu continuo solteira e boa rapariga, mesmo com todos os desafios e ideias pré-concebidas que a sociedade impõe.
Ele trabalhou a vida toda por conta própria, nos tempos em que a preocupação não era ser empreendedor, mas sim garantir comida na mesa e procurar ter uma vida melhor. Já eu, passo os dias a procurar distrações do meu trabalho das 9h-18h atrás de um computador.
Ele, mesmo tendo baixa escolaridade, sempre se preocupou em ler o jornal todos os dias, em ler livros para se manter atualizado. Eu aprendi a gostar de ler mais tarde e não dispenso ouvir as suas histórias ou saber a sua opinião sobre o mundo (mesmo que na nossa família falem todos ao mesmo tempo e que tenhamos visões ou interpretações divergentes).
Passados 30 anos de tantas diferenças, a verdade é que existem coisas comuns.
Ele tem oitenta e três anos e há trinta que é o meu parceiro de aniversário.
Ele é extremamente guloso (acredito que influenciado pela carência que passou em tenra idade). Eu saio a ele, e aprendi com a nossa família que estar à volta da mesa a celebrar as tradições é essencial para nos mantermos unidos, celebrarmos conquistas e revivermos memórias (e delicio-me quando o vejo a bater palmas totalmente fora de ritmo sempre que alguém faz anos).
Ele tem dificuldade em tarefas básicas como levantar-se da mesa, agachar-se, andar, subir e descer escadas. Eu também.
Ele vive com dor crónica. Eu também.
Ele tem múltiplas lesões articulares e ósseas fruto daquilo que a vida assim exigiu. Eu tenho uma doença do foro reumático que por vezes me deixa igualmente sem conseguir mexer.
Ele enfrenta a dor há tanto tempo que já nem consegue precisar. Eu há cinco anos que tento compreender o porquê do meu corpo se atacar a si próprio, sem conseguir resposta.
Ele conta até três e dá balanço sempre que precisa de se levantar. Eu nos meus melhores dias brinco com a situação e digo “fui mais rápida”, só para o conseguir ver sorrir e desafiá-lo, de certa forma, a continuar.
Ele tem o pior mau feitio de sempre. Eu acredito que essa forma de estar o torna uma das pessoas mais determinadas que já conheci. Mesmo tendo uma vida repleta de dor, ele:
- Não deixa de se aventurar mata adentro para ir caçar;
- Não falta às pescarias combinadas com os amigos;
- Não perde uma oportunidade de se envolver na comunidade, seja participar em manifestações ou ajudar associações;
- Mergulha de cabeça quando entra numa piscina ou no mar, mesmo que os joelhos falhem;
- Dança como se não houvesse amanhã em festas ou festivais;
- Enfrentou crenças impostas pela sociedade e voltou a amar como se fosse a primeira vez, o seu primeiro amor.
Ele tem oitenta e três anos e há trinta que é mais do que o meu parceiro de aniversário.
Há trinta anos que continua a estar fielmente presente, a cumprimentar-me com um beijo na testa e a ser um exemplo de como a vida pode ser dura, mas nós temos de ser mais duros ainda.
Carolina Sousa, 2025
30 anos, Dor crónica
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