Mireille S. Amaral
É tudo genético... ou não? Como as doenças reumáticas e musculoesqueléticas moldam as ligações familiares
Aos 23 anos, a minha vida mudou — não de repente, mas num compasso persistente que se foi entranhando no meu corpo, e passou a fazer parte de mim.
A artrite reumatóide chegou sem avisar, sem pedir licença, e desde então, nunca mais partiu. Chegou acompanhada de medos, dores, limitações… e, com o tempo, à medida que fui ganhando maturidade, permitiu-me fazer descobertas. Descobertas sobre mim, sobre o amor e sobre o verdadeiro significado de partilhar uma vida.
Já namorava com o André desde os 17 anos. Crescemos lado a lado, sonhámos o mesmo futuro e, quando a doença apareceu, foi de mãos dadas que aprendemos a enfrentá-la.
A artrite não moldou apenas as minhas articulações — moldou a nossa relação, o nosso modo de estar na vida, a forma como aprendemos a amar-nos com paciência, humor e esperança. E, contra todas as probabilidades, tornou-nos mais fortes.
Houve dias em que pensei desistir de mim, de nós.
Há dias em que cada gesto é uma batalha, há dias em que o corpo pesa toneladas e a alma fica cansada antes do anoitecer.
E também há cirurgias, tratamentos, rotinas que obrigam a reinventar-me. E o André está lá ao meu lado, SEMPRE. Com um olhar que me vê para além de tudo, com mãos que me amparam, com palavras que me devolvem coragem.
A sua presença na minha vida tornou-se o meu abrigo, o meu chão.
Quando a infertilidade entrou na nossa história, o sonho de sermos pais pareceu desvanecer-se. Chorámos, juntos, muitas vezes, num silêncio cúmplice. Mas reinventámo-nos outra vez.
Percebemos que a família não se mede em genes, mede-se em amor — e o nosso desejo ganhou forma, vida, nome.
Somos pais de um rapaz extraordinário. O Pedro inunda-nos de luz, de sentido, de ternura. Trouxe-nos uma nova dimensão do amor — aquela que não se explica, apenas se sente. Ele é a prova viva de que o amor encontra sempre caminho, mesmo quando a biologia fecha portas.
Os laços de sangue nunca foram importantes — o que nos une é infinitamente mais forte.
A doença ensinou-nos a ler os silêncios, a respeitar os limites, a celebrar o simples: um dia sem dor, um passeio partilhado, uma gargalhada no meio do cansaço.
O verdadeiro amor não se avalia nos momentos fáceis, mas na capacidade de permanecer, de cuidar, de acreditar quando tudo parece desmoronar.
Hoje, aos 50 anos, com o André há mais 30, olho para trás e percebo que a artrite reumatóide não nos roubou a vida — transformou-a. Alterou a perspetiva de a viver: com mais consciência, mais empatia, mais profundidade.
Não, não é tudo genético.
Há o que não se herda, mas constrói-se com coragem, ternura e presença: a capacidade de amar na adversidade, de ficar quando seria mais fácil partir.
A doença moldou-me, moldou-nos, sim — mas foi nesse molde que descobrimos a força do nosso amor, e a beleza da nossa família.
Mireille Amaral, 2025
50 anos, Artrite Reumatóide
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