Ana Soares
“O que faço para viver a minha vida ao máximo”
A cada novo dia é sempre a mesma realidade começando a luta logo pela manhã, mesmo depois de uma noite bem dormida a “bateria” começa sempre com carga mínima, um cansaço enorme com as articulações emperradas, mãos dormentes e encortiçadas. O sono parece tomar conta de mim e não me apetece levantar da cama, muito menos tomar medicamentos ou mesmo tomar banho e ter de colocar os óleos e os cremes para hidratar a pele, sair de casa para o trabalho e começar a trabalhar, ou, simplesmente ir passear é uma ação muito difícil, os músculos não reagem às minhas ordens e quando o fazem é com muita dor.
É um sofrimento físico, psicológico e acima de tudo emocional muito desgastante, tornando-se frustrante pois o corpo e a doença deitam-me abaixo ainda o dia não está iniciado. O cansaço não me dá tréguas e quando me autoavalio utilizando escala numérica de zero a dez a nota é sempre máxima, se existisse o onze e o doze seriam essas as notas atribuídas, pois é um cansaço que não passa e a cada dia intensifica-se mais.
Só não é mais difícil porque tenho um grande profissional a tratar de mim, o meu Médico Reumatologista que acreditou nas minhas queixas, e graças à sua persistência e dedicação chegou ao meu diagnóstico, conseguindo medicar-me adequadamente. Foi uma ajuda essencial a juntar ao gosto que tenho pela vida e que faz com que esta alentejana tenha uma determinação implacável e não desista facilmente.
Decidi então assumir o comando da minha vida começando por lhe dar mais valor aumentando a força de vontade de viver e a valorizar tudo e todos, é um prazer quando estou com as pessoas de quem gosto, as que se riem com as minhas histórias e brincadeiras e aquelas que também me fazem rir, adoro quando me riu à gargalhada até doer a barriga, é bom faz bem à alma e corpo (tonifica os abdominais) e gosto principalmente de mim!Por isso para viver a minha vida ao máximo logo de manhã faço precisamente o contrário, inicio o banho o mais depressa possível e torna-se milagroso, tomo a medicação e sigo em frente, ligo a televisão num canal musical e faz-se um clique, a música faz parte do meu dia-a-dia desde que me conheço é nela que absorvo toda esta minha energia, alegria e genica, é como se não tivesse qualquer problema ou doença, esqueço-me de tudo, sem dúvida o meu melhor medicamento!Sou muito ativa e sempre com coisas para fazer, faço todas as tarefas de casa embora umas vezes mais rápido que outras, mas o importante é que faço. O meu maior objetivo é ter qualidade de vida, ser feliz e continuar a trabalhar, como a tempo inteiro se tornou difícil por causa das tais manhãs e de um cansaço persistente tive que fazer opções e decidi trabalhar só a part-time conseguindo assim ter tempo para mim para realizar os meus tratamentos e ainda tenho tempo para dar atenção e tratar dos meus pais, aproveitamos ainda para passear muito e eles adoram, isto para mim é muito gratificante e faz-me muito feliz.
Tento sempre arranjar novas ocupações, faço hidroginástica e natação três vezes por semana e graças a isso consegui reduzir a medicação, todo o tempo que passo na piscina é o momento mais relaxante que tenho porque para além do exercício físico o convívio é muito agradável, depois eu quando gosto das pessoas gosto mesmo e com muita intensidade, não escondendo isso, adoro todos os meus colegas da natação e mesmo sendo já tarde no final da aula reunimo-nos à saída onde ali ficamos à conversa mais um pouco é para mim o melhor momento e medicamento que não quero nem tenciono deixar!Gosto muito de ir ao teatro e a concertos com a minha família, fico sempre muito cansada porque canto e danço até à exaustão, bem na realidade fico sempre pior, mas depois passa e o importante é que estive lá! Além disso gosto de viajar, estar com a família e amigos, felizmente tenho um grande apoio familiar o que faz de mim uma pessoa com força reforçada e com uma vida mais tranquila embora seja muito mexida.
Adoro viver, dou muito valor a tudo o que faço, porque a maior parte das vezes faço-o com muito sacrifício, mas vale sempre a pena e nunca me arrependo porque no fim tem um sabor especial. Sou uma grande lutadora assumida, e agora ao fim de 46 anos finalmente posso dizer que já tenho mais qualidade de vida, mas também faço por isso, porque nunca desisto e não deixo que seja o corpo mandar em mim, mas sim eu a mandar no meu corpo!
Ana Bragança Soares, 2015
46 Anos, Síndrome de Sjogren
