Fernanda Ruaz
Os heróis da minha vida
Quando em 1958 acabei o quarto ano de escolaridade, mudei de cidade e de vida. A escola era outra, o ambiente totalmente diferente. Lembra-me de me sentir desconfortável na nova casa, na família, na escola, na rua…Tudo me era estranho. Eu, que sempre tinha gostado de ir para a escola, comecei a detestar algumas disciplinas. No recreio não me integrava facilmente. Felizmente a minha irmã mais velha, (apenas mais ano e meio) andava na mesma escola e estava muitas vezes por perto. Nesse tempo ela foi a minha heroína, aquela com quem eu sabia poder contar sempre. Contava naquela altura e conto hoje. Há heróis que me acompanharam toda a vida.
Um dia acordei com dores num pulso; julguei que tinha dado um mau jeito. Pouco depois apareci com um tornozelo inchado e doloroso e quase não conseguia andar. As semanas foram passando e eu sempre com dores, ora num pulso, ora num ombro, ora num tornozelo…Aí deixei de me sentir apoiada. Não havia heróis, nem anjos perto de mim. Todos os miúdos e miúdas à minha volta saltavam e corriam e eu cada vez me sentia mais isolada. Pedi para voltar para Lisboa, para perto de uma tia que me tinha cuidado desde a morte da minha mãe quando eu era ainda muito pequena. No olhar atento que ela sempre me dedicou encontrei o lugar seguro, o lugar de carinho, da compreensão que precisava.
Essa tia foi a grande heroína da minha vida. Ela deu-me tudo quanto uma boa mãe pode dar a um filho. Por mim lutou, por mim procurou médicos, encontrou soluções, arranjou forças para me animar, descobriu maneiras de me aliviar a dor. Mulher pobre, simples e sem cultura, ensinou-me que uma criança precisa só de um colo seguro, de amparo sem super proteção, de amor incondicional, sem pieguices nem lamentos perante a adversidade. A ela devo a coragem para enfrentar a vida. A ela devo tudo o que consegui fazer de mim.
Quase ao mesmo tempo, um grande médico, um homem a quem devo muito, começou a tratar-me. Numa altura em que a Artrite Idiopática Juvenil ainda era mal conhecida, eu tive ao meu dispor o que de melhor medicamente se fazia no mundo. A doença era
agressiva, mas o meu médico nunca desistiu, nunca me fez temer pelos dias vindouros. Pelo contrário. Em cada consulta, em cada novo tratamento, em cada medicamento que me propunha, transmitia-me esperança e a certeza que a doença podia condicionar, mas nunca destruiria o meu futuro, se eu não deixasse. Ensinou-me a lutar contra as más situações, a procurar os meios para conseguir tirar proveito de tudo o que de bom eu tinha: a imaginação, a criatividade, a capacidade de ultrapassar a dor. A esse homem bom e sábio, devo muita da força que me levou a acreditar que se aprende muito mais com uma vida difícil do que com uma vida sem problemas. Mais um herói. Um grande herói da minha vida.
Mas sessenta anos de vida com doença crónica são muitos anos, muitas etapas, muitas fases, com heróis de sempre e novos heróis.
Casei cedo, com o grande amor da minha vida. Com ele acreditei que podia construir uma família, que de mãos dadas seria possível e mais fácil. Mais um herói! Por ele me alindei e alindo, mesmo que não goste das marcas que a doença vai deixando no meu corpo. Tivemos um filho, e logo o menino passou a ser outro meu herói, a luz dos meus dias. Um herói pequenino, que me fazia sorrir e onde aprendi que dar amor é mais importante do que receber. Por ele
escondi dores com sorrisos, por ele engoli lágrimas para o não preocupar. Assim foi e ainda assim é, a que se juntaram agora mais dois pequenos heróis, agora os netos, alegria da minha velhice.
A vida corre, corre…sempre entre a esperança de um medicamento inovador que acabe de vez com o sofrimento e o medo das consequências da medicação cada vez mais agressiva.
Há momentos em que o cansaço, a sensação de “dejà vu” domina tudo. Aí surge o desejo de fechar os olhos, numa tarde serena, sentada debaixo de uma grande árvore, e não pensar e não sentir… Mas logo um pássaro, um assobio, uma brisa, o meu pequeno cão que aparece dando ao rabo, faz-me voltar ao real e desejar continuar. Não sei por quanto tempo, não faço ideia em que condições, mas é o mistério da vida que a pode tornar atraente.
Posso garantir-vos que quando penso encontro heróis por todo o lado. No meu passado, no meu presente, na vida de todos os dias. Há dias em que me sinto uma pequena heroína duma estranha aventura, em que julgo impossível terem passado sessenta anos com uma doença que nunca me deu tréguas mas que não me venceu nunca. Não esqueço todos os heróis que tornaram possível estar aqui a partilhar convosco a minha história: médicos que me têm acompanhado, cirurgiões a quem muito devo, cientistas, investigadores desconhecidos…
Fica-me sempre um hino de gratidão como pano de fundo a toda esta história de heróis. E aí recito os primeiros versículos de um dos Salmos de que mais gosto, o 139: “SENHOR, Tu
examinaste-me e conheces-me, sabes quando me sento e quando me levanto; à distância conheces os meus pensamentos.“
E eu, que devo muito ao amor à Filosofia, mergulho no divino, querendo acreditar que tudo tem um propósito, que tudo tem um sentido que nos ultrapassa e nos faz a todos, sem exceção, heróis de um imenso e maravilhoso universo com miríades de galáxias, onde o Real é muito mais do que podemos entender.
Fernanda Ruaz, 2018
69 anos, Artrite Idiopática Juvenil