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Sofia Fortunato

"Time is joint - Joints over time"
Diagnóstico precoce e acesso a cuidados de saúde nas doenças reumáticas e músculo-esqueléticas - o mundo ideal e a realidade: a minha história pessoal

A minha irmã e eu com cerca de 2 anosJulho 1986. Tenho 5 anos e uma vida normal. Estou a brincar com a minha irmã quando, de repente, caio e bato com o joelho esquerdo. Não podia imaginar que esse episódio mudaria para sempre a minha vida…
Com uma saúde de ferro até então, era difícil suspeitar que aquele joelho inchado pudesse significar algo de grave. Mas passaram vários dias, o inchaço não desaparecia e os meus pais começaram a interrogar se alguma coisa não estaria bem.
Primeiro médico: o RX ao joelho não detectava nada por isso em alguns dias voltaria tudo ao normal.
A minha irmã o meu pai a minha mãe e eu com 8 anos num baptizadoSegundo médico: diagnóstico semelhante, o joelho estava dorido e precisava de repouso: 15 dias de perna e pé engessados resolveriam a situação.
Depois de 15 dias sem ir ao colégio e de obrigar a minha mãe a ficar em casa a aturar a minha rebeldia, chegou a esperada remoção do gesso. Não me lembro das caras das pessoas mas acredito que a desilusão tenha invadido os rostos de toda a gente quando, destapada a perna, já não era só o joelho que estava inchado mas também o pé.
Começa um filme de terror na minha vida: dores cada vez mais fortes e espalhadas pelo corpo todo, perda de apetite, febre, colheitas de sangue para análise todas as semanas, exames dolorosos, como perfurações no joelho para procurar líquido sinovial, médicos a sugerir o meu internamento, consultas e exames… e no entanto, a única coisa que conseguiam detectar era uma inflamação galopante, sem perceber a sua origem ou os seus motivos.
Eu com 15 anos e a minha mãe no AlgarveSemana após semana, as crises sucediam-se. O corpo ficava completamente paralisado com dores. Não me conseguia mexer e ninguém me podia tocar. Nestas alturas a única forma de aliviar as dores era mergulhar numa banheira de água quente.
Passaram 6 meses, muitas consultas, exames, dinheiro, cansaço e desespero depois até que numa consulta com um reumatologista o diagnóstico foi comunicado aos meus pais. Recordo-me de não ter percebido bem o que se passava mas de ter visto a minha mãe chorar.
Eu com 35 anos e com a minha afilhada ao coloNão entendia porque é que a minha vida tinha mudado tão drasticamente, porque já não ia ao colégio todos os dias e passava o dia em hospitais. Porque é que tinha tantas dores, porque é que já não conseguia correr nem subir ao escorrega. Porque é que tinha de tomar comprimidos. Entristecia-me sair da escola, e ao contrário das outras crianças que iam brincar, eu ia para a fisioterapia de onde só saía à noite.
Naquela altura, a medicação não era tão eficaz como hoje. Por isso, e apesar de medicada diariamente com anti-inflamatórios e salazopirina, o inchaço e a dor começaram a dar lugar às deformações. De repente, tinha vergonha das minhas pernas, dos meus pés, das minhas mãos…
Comecei a sentir-me diferente e distante dos outros e cada vez mais distante da pessoa que eu era antes de ter caído e batido com o joelho.
Hoje a artrite infantil é uma doença conhecida. Basta fazer uma pesquisa na internet e encontramos informação sobre a doença, os tratamentos, casos parecidos, médicos, consultórios, centros de fisioterapia e ajudas técnicas.

Eu com 29 anos e uma amiga no dia do seu aniversárioMas há 30 anos nada disto existia. Sabia que tinha uma doença mas não sabia que era incurável porque os meus pais nunca quiseram privar-me da esperança. Sempre achei que um dia ia acordar e os dedos das minhas mãos iam estar direitos, ia conseguir dobrar os joelhos e sentar-me no chão, ia correr como sempre tinha feito até ali. Só aos 11 anos soube o significado da palavra crónica que adornava o nome da minha doença, e foi nesse dia que parte de mim morreu.
Passei a adolescência a tentar lidar com os outros sem saber lidar comigo e com muita raiva porque não sabia a origem de tanto sofrimento. Já não bastavam anos de dores, hospitais, exames? Não podia finalmente voltar à minha vida normal? Quando é que o pesadelo ia acabar?
Foram precisos muitos anos para ganhar a serenidade da idade adulta e deixar de me fazer estas perguntas.
Se a doença fosse mais divulgada na altura, tudo teria sido mais Sofia Fortunatofácil. Muitos exames dolorosos teriam sido evitados, muito dinheiro teria sido poupado, a medicação poderia ter sido eficaz mais cedo e, principalmente, muitas interrogações e angústia teriam sido evitados.
Dezembro 2017. Tenho 35 anos, a doença evoluiu até tornar o andar impossível. Tenho próteses nas 2 ancas e no joelho esquerdo. Muitas dores nas costas, nos braços, no pescoço… Apesar disso, formei-me, fiz uma pós-graduação, um mestrado, trabalho todos os dias e não houve um dia que não sonhasse que o futuro seria melhor.
Sou seguida com regularidade no hospital e acredito que a medicação que tomo actualmente representa o que de melhor e mais eficaz existe no mundo. Lembro-me vagamente do que é um corpo sem dores. A sensação é tão boa que parece que estamos a levitar. Os meus dias, pelo contrário, só existem ou com algumas ou com muitas dores. A solução é adaptar as tarefas ao que consigo fazer e dedicar o meu tempo aos livros, filmes e a quem me faz feliz. E sou muito feliz.

Sofia Fortunato, 2016
35 anos, Artrite infantil