Paula Nunes
O que faço para gozar a vida ao máximo
- Quem é o melhor filho do Mundo?
- Sou eu! E sabes quem é a melhor Mãe do Mundo?
- Hum… não faço a mínima ideia… Quem é?
- És tu! – disse o Joãozinho a sorrir, dando um enorme e forte abraço à sua Mãe.
- Tão booooom! Sabes que esses abraços são os melhores do Mundo? Gosto taaaanto!
- Os teus abraços, beijinhos e miminhos também são os melhores do Mundo!
- Ah é? Que bom! – disse Daniela com um sorriso deslumbrante, vindo da alma. - Mas agora, menino João, são horas dum soninho maravilhoso para amanhã termos forças para brincarmos muito, sim?
- Sim!
Deram mais um beijinho e trocaram mais um miminho. Daniela aconchegou o seu filhote nas mantas e saiu de mansinho com o coração cheio.
Ter aquele filho foi uma das melhores coisas que lhe aconteceu na vida e não se arrepende um segundo que seja por tudo aquilo que passou para o ter (depressão pós parto; problemas com a amamentação; crise de artrite que ocorreu 1 mês depois dele ter nascido; desgaste duma das ancas que acabou por levar à colocação de prótese, embora não se saiba ao certo se terá sido consequência da gravidez, mas sucedeu pouco tempo depois do nascimento).
Embora várias pessoas (da família e sem ser da família) a tivessem desmotivado a ter filhos por causa da artrite (diziam que ela poderia piorar muito, que de certeza a criança viria com o mesmo problema de saúde, etc), Daniela nunca vacilou. Sabia que tinha nascido, entre outras coisas, para ser mãe. Além disso confiava na medicina e no Universo para a ajudar a concretizar esse sonho.
Daniela era uma pessoa feliz porque nunca se acomodou a nada nem ninguém. Apesar de ter artrite, o que por vezes lhe limitava um pouco mais a vida, Daniela sabia que a vida não se resumia apenas a isso. Ela conseguia ver, pensar e sentir mais além. Sentia que a vida era bela, cheia de coisas boas e queria ir ao encontro dessas coisas, custasse o que custasse. Sabia que ia valer a pena.
Quando Daniela ainda era solteira, a determinada altura, quis tirar a Carta de Condução, pois via nesse investimento uma grande mais valia para a sua vida e que lhe traria uma independência e comodidade muito grandes. Assim, escusava de andar nos autocarros, que tanto a angustiavam, quer por em alguns deles lhe custar bastante a subir lá para cima; quer por ter dificuldades em equilibrar-se quando estava de pé num autocarro em movimento devido aos seus debilitados pés, e também por não ter a força suficiente nas mãos e punhos para se agarrar e manter segura… E pagar ao motorista com o autocarro em movimento? Horrível… Com estas dificuldades todas, como era possível tirar a carteira de dentro da mala e efetuar o pagamento, trocando moedas com o condutor, com o autocarro em andamento? Daniela procurava levar já o dinheiro trocado na mão para lhe facilitar a vida, mas nem sempre isso era possível… Andar de autocarro era um autêntico pesadelo para ela, razão pela qual achou que tirar a Carta de
Condução lhe facilitaria muito a vida, mas a sua família, que era quem mais a devia apoiar, não pensava assim. Eles achavam que devido à artrite, ela jamais conseguiria conduzir e tentaram tirar essa ideia da sua cabeça. Daniela sentiu-se desiludida, frustrada, incompreendida, mas não desistiu. Ela sabia que não tinha de ser assim! Não foi tarefa fácil mas conseguiu concretizar mais esse sonho.
E assim foi pela vida fora. Daniela sempre foi de encontro áquilo que lhe pudesse trazer mais felicidade e que a fizesse sentir mais preenchida, realizada e de bem com a vida, mesmo que os outros fizessem de tudo para lhe mostrar exatamente o contrário.
Ser uma pessoa “normal” e independente sempre foi um profundo desejo de Daniela, apesar de sentir que as pessoas à sua volta não a viam dessa forma. Talvez a considerassem uma pobre coitada com o enorme fardo da artrite às costas e que sempre seria dependente de outros para tudo. Contudo, Daniela sempre tentou ignorar essas visões limitadas, que tanto a rebaixavam e frustravam. Ao invés disso, focava-se naquilo que pretendia atingir, e desde pequena habituou-se a ver-se e sentir-se como uma pessoa “normal” e que era capaz de chegar onde todos os outros também chegavam, até porque não
era menos que ninguém, apesar das suas limitações e dificuldades. Se havia algo que não conseguia fazer, improvisava à sua maneira até conseguir. Isto aplicava-se nas coisas práticas do dia-a-dia e também em desejos maiores que pretendia alcançar.
Para Daniela, a melhor maneira de gozar a vida e tirar o melhor partido dela era ir de encontro áquilo que idealizava, por mais que os outros a tentassem convencer do contrário. O que realmente lhe interessava era o que ela verdadeiramente sentia. Era isso que contava e nada mais.
Neste momento, Daniela encontra-se a tentar ter um segundo filho, apesar de já ter 41 anos e de todos dizerem que é uma perfeita loucura por todos os motivos e mais alguns (pela idade, pela artrite, por ser cuidadora da mãe, etc.). 
Na realidade, há alturas em que Daniela sente muito medo. Tem medo de passar por tudo de novo (depressão pós parto, problemas de amamentação, crises de artrite, etc), tem medo de desgastar ainda mais as suas frágeis articulações e de isso ter consequências catastróficas na sua vida, tem medo de não ter energia e resistência suficientes para cuidar da mãe e de dois filhos, tem medo de uma gravidez na idade que tem poder causar problemas no bebé, entre outros medos… Mas
Daniela também não está a agir levianamente. Ela perguntou a opinião de vários médicos, que não disseram um “sim” aberto, mas também não disseram um implacável “não”… É uma situação delicada. Pode haver riscos, mas também pode não haver… A própria vida é um risco e se tivermos medo de a enfrentar, nunca iremos sentir verdadeiramente o sabor da vitória... Por isso, Daniela resolveu avançar e meter nas mãos do Universo o que for melhor para ela. Sabe que a medicina estará cá para a apoiar, se for caso disso.
Quer corra bem ou menos bem, Daniela fez por aproveitar e gozar a vida ao máximo, tentando realizar os sonhos que estão no fundo do seu coração, e só por isso já se sente uma vencedora perante a vida!
Paula Nunes, 2015
41 anos, Artrite Idiopática Juvenil