Benefícios do Exercício Aquático na Osteoartrose

Exercício aquático: características e benefícios

A modalidade de Hidroginástica pode ser definida como um conjunto de exercícios aquáticos praticados predominantemente na vertical, em piscina rasa onde o praticante tem o apoio dos pés no chão (shallow water) ou em piscina funda, onde não há qualquer contato dos pés com o chão (deep water), não sendo obrigatória a utilização de música ou equipamentos adicionais. Uma das grandes vantagens desta modalidade é a sua versatilidade, o que permite a sua aplicação para diferentes objetivos e populações. A hidroginástica é utilizada no âmbito da prevenção, através dos programas que promovem a melhoria da condição física (fitness), no treino desportivo e também em programas de reabilitação/hidroterapia.
A principal característica do exercício aquático consiste na utilização de propriedades específicas da água, nomeadamente a pressão hidrostática, a força de flutuação e a resistência hidrodinâmica, propriedades que têm sido referenciadas como explicativas das principais adaptações crónicas reportadas em estudos clínicos de intervenção através de programas aquáticos.
No que se refere a Osteoartrose do Joelho (OAJ), vários estudos têm verificado efeitos positivos do exercício aquático nos sintomas, na capacidade funcional, na força dos membros inferiores e na qualidade de vida dos pacientes (Quadro 1).
Quadro 1 – Benefícios específicos do exercício aquático na OAJ.*

Sintomas  Efeito do exercício aquático
Dor

A pressão hidrostática melhora a circulação periférica e atua nos recetores da dor, e quando combinada com o relaxamento muscular proporcionado pela acção da força de flutuação, promovem a diminuição da dor. Adicionalmente, a temperatura da água da piscina superior a 28ºC pode contribuir para a redução da dor.

A água permite a realização de exercícios de baixo impacto, como caminhar ou correr, com redução do peso corporal variável consoante o nível de imersão. Este efeito é atribuído à força de flutuação que reduz a carga mecânica imposta às articulações do membro inferior, e que é particularmente importante no caso de indivíduos obesos. Este tipo de exercício com duração superior a 3 minutos tem um importante papel no controlo da dor.

Rigidez muscular A realização de exercício em piscina com água aquecida (entre 28 e 32ºC), pode colaborar, juntamente com a redução do edema, para a diminuição da rigidez articular, ao promover o relaxamento muscular, e consequentemente, da contenção activa exercida pelos tendões em redor da articulação.

Edema ou tumefação
(inchaço)

A pressão hidrostática aumenta 1 mmHg a cada 1,36 cm de profundidade. Isto significa que quando o corpo está imerso a 1,2 metros de profundidade, a pressão exercida pela água em redor dos membros inferiores é superior à pressão diastólica normal (60-80 mmg), podendo contribuir para a melhoria do retorno venoso. Esta é a explicação justificativa da redução do edema observada após a imersão em estudos clínicos na OAJ.
Perda da funcionalidade A diminuição do edema ou tumefação proporcionada pela pressão hidrostática conjuntamente com a diminuição da rigidez, leva à melhoria da amplitude articular e consequentemente maior capacidade de realizar movimentos.
Limitação da amplitude
articular

A ação da força de flutuação ajuda a reduzir a sobrecarga mecânica e permite a realização de movimentos com maior amplitude articular, proporcionando alongamento dinâmico dos grupos musculares recrutados em cada movimento.
Por outro lado, mesmo nos casos de fraqueza muscular há a possibilidade de realização de movimentos no sentido da superfície da água de forma que o movimento seja assistido pela força de flutuação, que se opõe à força da gravidade.

A necessidade de melhorar as intervenções não farmacológicas para indivíduos com OAJ e o facto de haver pouca pesquisa na área da metodologia do exercício aquático e a osteoartrose do joelho, deram origem ao projeto PICO (Programa de Intervenção Contra a Osteoartrose).

PICO: um exemplo eficaz no tratamento da Osteoartrose do Joelho*

CARACTERÍSTICAS DO PROGRAMA PICO
O programa aquático PICO teve como objetivos específicos a melhoria dos sintomas, aptidão física e da qualidade de vida de adultos (45-65 anos) com sobrepeso ou obesos, com diagnóstico clínico e radiológico de osteoartrose do joelho. Para tal, o programa foi desenhado de maneira a ser uma intervenção abrangente, direcionada não apenas para o joelho afetado, mas sim para o estado geral do paciente, com uma preocupação constante de trabalhar o corpo e a mente simultaneamente.
DESCRIÇÃO DO PROGRAMA
O programa contou com o total de 24 sessões distribuídas ao longo de 12 semanas, com uma frequência semanal de 2 vezes por semana. Cada sessão teve a duração de 60 minutos, com 15 minutos para avaliação e para questões relacionadas com a educação do paciente e 45 minutos foram efetivos de exercício aquático. As sessões foram lideradas por profissionais das Ciências do Desporto da Faculdade de Motricidade Humana, especializados em Exercício e Saúde, com formação específica em hidroginástica.

 

RESULTADOS  GERAIS

O programa aquático mostrou-se uma óptima opção de exercício para pessoas adultas obesas promovendo melhoria:
• 54% na dor auto-reportada;
• 43% nos outros sintomas da OAJ;
• 43% na qualidade de vida relacionada com a OAJ;
• 46% na depressão auto-reportada;
• 10% na aptidão aeróbia e capacidade de caminhar (teste de Seis Minutos Marcha);
• 14% na força de preensão manual;
• 27% na capacidade de levantar e sentar na cadeira 5x;
• 100% na flexibilidade dos membro inferiores (teste adaptado de sentar e alcançar).

O Programa Aquático Pico demonstrou a importância de se fazer uma intervenção mais global, onde a motivação proporcionada pelo efeito de grupo, pelas estratégias de liderança e pela utilização cuidada da música foram essenciais para a retenção dos participantes com uma assiduidade de mais de 90%.

* Mais detalhes de suporte a este documento em “Yazigi, F. et al (2013). The PICO project: aquatic exercise for knee osteoarthritis in overweight and obese individuals. BMC Musculoskelet Disord, 14, 320.

Flávia Yázigi (Professora na Faculdade de Motricidade Humana, especialidade de atividade Física e Saúde; treinadora e membro do comité científico da Aquatic Exercise Association)
 

Depoimento de participantes:

"Olá Flávia, terminei este programa (Pico) com grande alegria, não só por todas as pessoas que conheci, mas também pelos progressos alcançados. Cara Amiga Flávia, mais uma vez o meu muito Obrigado e fiquem certos de que vou ser o vosso Embaixador pelo mundo, publicitando o vosso Grandioso Trabalho, Abraços e beijinhos para todos." Porfírio Brito

"Até à data está a funcionar em pleno. Sinto-me mais solto de movimentos e... já perdi 3 Quilos!" João Pinto

"Começámos o projecto PICO em meados de Março, no meu caso específico já aconteceram algumas coisas boas: 1 - Comecei a sentir as minhas pernas mais fortes (joelhos) e estou a pouco e pouco a sentir que ando mais direita, com menos medo de por o pé esquerdo no chão, o que acontece normalmente.2- Descobri que o sofá lá de casa era muito baixo e que isso também me causava mais mal-estar. Livrei-me do sofá, agora ou uso uma cadeira ou num sofá alto - tipo cama - em que não preciso de dobrar tanto as pernas.3 - Não sei se acontece a mais alguém, mas sinto mais dores no joelho quando parece que ele "sai do sítio" - descobri que se ficar de joelhos em cima duma almofada consigo "alinhar" essa parte do joelho e melhoro por uns tempos. Um abraço para todos e obrigada por esta iniciativa!" Maria Augusta Sousa

Artigo publicado no Boletim nº 54 (Outubro a Dezembro de 2014)