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Maria José Castro

“O meu herói
e o seu apoio na minha vida diária com uma doença reumática e músculo-esquelética (DRME) “

O frio não é um grande amigo da fibromialgiaE como um pequeno pedaço de papel alterou o meu rumo…

Março: último dia; ano: 2013; estado físico: músculos a ganirem que nem cachorros maltratados, tensão arterial a amotinar-se contra os anti-inflamatórios, estômago em revolta por excesso de medicamentos, desânimo, apatia, vontade de desistir (nem sabendo bem de quê), choro fácil e motivação difícil.

Era assim - lembro-me bem! -, que me encontrava ao fim de cinco meses incapacitada para trabalhar, cansada de me passear - mancando - por consultórios médicos e de ser bisbilhotada - por dentro e por fora - com análises, tomografias, ressonâncias e outros tantos exames com nomes assustadores. Nada do que se encontrava era motivo para tantas dores… (…e eu a senti-las e a começar a duvidar da minha sanidade mental!).

Mas, nesse dia, um pequeno recorte de jornal pousado na minha secretária (por um marido desesperado e, quem sabe (?), à beira de um ataque de nervos) prendeu-me a atenção. Ao fim de muitas semanas de desalento algo me despertava curiosidade: “Blogue – histórias em 77 palavras”. Senti, no desejo de escrever, uma tábua de salvação. Espantei-me comigo própria. Embora na minha adolescência a escrita tivesse tido um papel importante no meu crescimento, e sempre me tivesse deliciado a escrever um artigo ou outro para o jornal da escola, nem eu sabia, afinal, o quanto gostava de o fazer.
Trabalhar em ambiente descontraído é um dos segredos da minha heroínaPesquisei, vi as regras e contactei a autora, com parcimónia: afinal tratava-se de escrever histórias que seriam publicadas e lidas por quem quisesse (que medo!) depois de passarem sob o olhar de uma escritora que arrastava consigo um percurso pautado pelo seu enorme talento. Mas, a resposta imediata, simples e despretensiosa, fez-me avançar (até hoje!).
Quando, ao fim de algumas semanas, um médico me diagnosticou fibromialgia, já eu tinha descoberto que necessitava de me entregar, diariamente, a um tratamento de espírito: escrever (ato que ele apoiou e incentivou, sempre, como parte da minha terapia).
Mas afinal onde entra em cena o meu herói? Não é um herói, é uma heroína!
Uma amiga de há poucos anos que sinto conhecer desde sempre.

A minha heroína formadora nesta ação de escrita criativaA tal escritora que me intimidava, por me sentir atrevida ao ousar enviar-lhe um pequeno texto, escrito com emoção – é certo! – mas carente das técnicas de bem saber dizer o que nos assola a alma, transformou-se afinal na minha heroína (que só agora, quando este desafio me pôs a pensar no caso, descobri que o era).
Acompanhava, pelos media, os sucessos de uma mulher de garra a avançar com livros, projetos, dinâmicas variadas; nas suas formações de escrita, que frequentei via net, via-a a esbanjar conselhos e elogios, correções e reparos, sempre de uma forma tão delicada, descomplicada e bem-intencionada que deixava os alunos com vontade de fazer mais e melhor. Nunca esquecia o incentivo generoso a todos com quem o seu trabalho se cruzava. Sendo professora – fiel à disciplina positiva –, fascinei-me, de imediato.

O meu marido é o meu apoio diário e prima por me fazer rirQuando a conheci, pessoalmente, os meus olhos devem ter refletido o espanto da minha alma: os dedos deformados, os passos, por vezes, arrastados, a dificuldade em alguns movimentos, aquele sorriso baço que só quem tem dores escondidas conhece. Fiquei baralhada. Não me parecia possível.

E então, um dia, soube, por ela e sem preconceitos, que a dor crónica era a sua companheira de viagem. Afinal, aquela mulher que eu admirava pela força com que vivia a vida, que me levava a pensar que a sua saúde de ferro lhe permitia toda aquela atividade era uma doente reumática.
A surpresa trouxe-me uma miscelânea de sentimentos: a solidariedade com alguém que partilha do mesmo mal e que, talvez por isso, nos entende tão perfeitamente; a esperança sobre um futuro que nos atemoriza e que começamos a Sempre que posso passeio com a minha mãevislumbrar de outro modo, mais ligeiro, percebendo que há regras a cumprir mas que nada nos será impossível; a admiração, a tão profunda admiração, por uma pessoa cujo talento é tão grande quanto a sua generosidade; o respeito por alguém que, tendo uma criatividade sem limites, não se cansa de incentivar os outros e partilhar tudo o que tem, despojando-se das suas armas para as emprestar para batalhas alheias; a alegria de perceber que é possível, a alguém que a vida - por vezes - maltratou, seguir em frente mantendo a disponibilidade desinteressada e nunca cultivando a amargura.
Adoro passear sempre que os músculos autorizamPercebi que sorria mesmo quando as dores lhe mordiam lá dentro; percebi que se levantava, de madrugada - mesmo quando o corpo lhe suplicava descanso -, porque havia miúdos, algures, que a aguardavam para a ouvir ler uma história; percebi que é capaz de dinamizar uma formação, e fazer críticas aos seus alunos – transformando uma história medíocre numa (quase!) obra-prima –, sem deixar que o azedo mau estar que a invade espreite uma única vez.

Entrou na minha vida no momento certo e, sem me aperceber, fui adotando o seu exemplo para não perder o norte. Nem ela sabe o quanto me inspira quando o cansaço me quer vencer, quando as dores insistem em me derrubar, quando a depressão me espreita maliciosa; nem ela sabe o quanto me faz bem à alma.
Não está presente no meu quotidiano, pelo menos fisicamente; não é visita da minha casa, não me atura as crises Alguns dos meus finalistas de 2017. Dress code -executivo. Eu alinheidepressivas; não me acompanha nas consultas, como o meu companheiro e as minhas grandes amigas de sempre (outros heróis a quem homenageio diariamente). Mas sei que está à distância de um e-mail ou de uma mensagem, que me responderá prontamente com palavras sábias de ânimo, que vibrará com as minhas pequenas vitórias com os meus alunos, com um texto bem-sucedido, com um elogio que me seja dado.

Porque a doença não é apenas física e porque as dores que, por vezes, persistem em se aninhar na alma são tão fortes quanto as outras, precisamos de baluartes que sejam um exemplo de força, a quem possamos recorrer nos momentos maus, para os ultrapassarmos, e nos bons, para podermos partilhar alegrias.
Grata, Margarida, por seres a minha heroína.

Maria José Castro, 2017
57 anos, Fibromialgia